Tocada pela música

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Em vários momentos de nossas vidas somos surpreendidos por uma vontade louca de fazer algo errado e proibido. Lutamos contra essa vontade. Não podemos nos entregar. É arriscado e existem conseqüências com as quais não podemos ou não queremos lidar. Porém, um belo dia você acha que sua vida está calma demais você resolve arriscar para ver o que acontece. Eis aqui a forma como me deixei ser nocauteada.

Amante de música desde criança – porém sem dom para tocar ou cantar coisa alguma – sempre me permiti deixar ser levada pela agradável sensação de prazer que um bom som pode proporcionar. Música me relaxa, me estimula, me faz concentrar e manter o foco, me anima, me faz chorar, me faz sorrir, me faz sentir saudades, me excita… Um traço pessoal meu é esgotar uma música quando gosto dela. É ouvi-la repetidas vezes durante o dia, dia após dia. Muitos me perguntam como eu agüento sem enjoar. Eu não enjôo porque eu não “engulo” música, eu “degusto” música – vagarosamente. Eu me delicio com cada instrumento, cada batida, a voz, a melodia… Tudo isso, perfeitamente harmonizado, é o que me prende de cara e faz com que eu queira voltar e esmiuçar a música e buscar sentir prazeres diferentes a cada vez que eu escuto.

Tive um período de “calmaria musical” que findou recentemente. Num momento de tensão e pressão no trabalho, onde me vi forçada e produzir num passo mais acelerado, meu recurso era isolar-me em meu escritório com meus fones de ouvido e trabalhar sendo estimulada pelo som sexy do meu instrumento favorito em versões personalizadas de minhas músicas favoritas postadas em vídeos na internet. Sempre funcionava conforme o esperado: eu montava uma playlist, deixava tocando, e me concentrava nas minhas tarefas. Até que um belo dia, num momento de descontração em que eu explorava algumas recomendações musicais, ele me chamou a atenção. Ele, músico misterioso que não mostrava o rosto, mas que prendeu meus olhos e ouvidos com aquela forma suave e natural com a qual tocava aquele instrumento, sobre o qual detinha perfeito e total domínio. Admirável!

Dia após dia aquelas mesmas tarefas no trabalho que exigiam concentração me faziam recorrer à minha “droga” favorita: música. Minha curiosidade e interesse me levaram a explorar um pouco mais do que ele, músico misterioso, tinha a oferecer. E assim, música após música, vídeo após vídeo, aos poucos me vi sendo enfeitiçada como que por um ser mitológico. Fez-me lembrar do mito grego de Orfeu,poeta e músico mais talentoso que houvera vivido.Dizem que quando Orfeu tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar sua música, e os animais selvagens perdiam o medo. As árvores se curvavam para pegar os sons no vento e tudo o que tinha vida ou não o seguia. Ele movia rochas nas encostas e mudava o curso dos rios. Tudo era enfeitiçado por sua música. Foi bem assim que me senti.

Após uns poucos dias de hesitação, decidi tentar contato com esta “representação de Orfeu na Terra”, pois havia em mim a necessidade de elogiar todo aquele talento e agradecer pelo delicioso cardápio musical que ele oferecia – que se encaixava perfeitamente no meu gosto, algo raríssimo! Obtive sucesso no mesmo dia e engajamos numa conversa longa e agradável na qual consegui transmitir a ele minha profunda admiração por seu trabalho e gosto musical. Essa primeira conversa se estendeu por horas, até a madrugada, sendo que nem havíamos sentido o tempo passar.

Dia após dia conversávamos. O papo era agradável, divertido, engraçado, leve. Aos poucos eu descobria seus outros trabalhos, digeria os anteriores, e buscava mais, aumentando minha lista de favoritos. Eu fazia questão de dizer que tal momento de tal música me tocava de forma especial. Era ótimo, excitante e estava ficando envolvente.

Em pouco mais de uma semana, e de forma super natural, nosso assunto começou a aquecer, tomar um rumo diferente, e embora ambos tivéssemos limitações pessoais e espaço-temporais pra levar essa idéia adiante, aquilo parecia não importar muito. Havia uma sintonia absurdamente gostosa entre nós. O desejo aflorou, e com o passar dos dias só aumentava. Já era. Eu tava enfeitiçada. Aos ver os vídeos em que ele tocava aquele instrumento de som sexy, minha mente projetava o meu corpo ali no lugar do instrumento, e eu desejava que toda aquela destreza fosse utilizada em mim. Eu fechava meus olhos e entrava em transe o ouvindo tocar. Queria que ele tocasse a mim daquela forma, com toda aquela habilidade. O desejo era mútuo, e isso só fazia nossa excitação aumentar. Os papos tanto no chat quanto ao telefone me deixavam ofegante, ruborizada, encharcada. Sua música era o catalisador, mas sua voz sussurrando seus desejos pra mim era o que fazia meu fogo aumentar. Aquele meu vulcão interior até então adormecido já estava borbulhando querendo dominá-lo por inteiro.

Eu já havia perdido a noção do perigo enquanto conversávamos nas noites. Corria um sério risco de ser surpreendida e então posta contra a parede para dar explicações… como se fosse necessário numa situação dessas. Meus momentos de intimidade em casa eram pensando nele, desejando ele. Ahhh,ele adorou saber disso. E eu adorei contar, pois não perco oportunidade de jogar mais lenha naquela fogueira dele.

Sagitariana, fogosa, impetuosa, implicante e impaciente, eu quando quero algo eu vou e pego. Não sei e não gosto de esperar muito. Se a oportunidade existe, eu aproveito. Se não existe, eu crio. Ele viu isso em mim, e eu não tinha muita certeza se isso o excitava ou assustava, ou as duas coisas. Tudo isso já não saía mais da minha cabeça. Eu estava ansiosa, querendo encontrá-lo e deixá-lo fazer tudo o que ele dizia que queria fazer. Da mesma forma eu queria pintar e bordar com ele, e fazer com que aquelas nossas gozadas ao telefone passassem a ser uma experiência corpo-a-corpo. Assim, após uma semana de papos quentes e um planejamento minucioso, comprei minhas passagens aéreas e reservei um hotel para poder passar umas poucas e intensas horas com ele. Sim, comprei passagens em menos de duas semanas do meu primeiro contato com ele, para ir encontrá-lo.

Tudo parecia estar na mais perfeita harmonia até que… em um determinado momento ele é surpreendido por uma onda de sentimentos inesperados e nunca sentidos por ele: ansiedade extrema. Depois de dois dias ele surgiu tenso, precisando conversar e expor tudo o que estava sentindo, pois isso o estava incomodando muito. Seu sono e apetite estavam fora de sincronia com o corpo, que já se recusava a obedecê-lo. Ele estava cheio de medos e receios, pensando em tudo o que pudesse dar errado. Foi pego de surpresa. Achou que fosse tão bem resolvido quanto a isso.

Inicialmente, meu desespero feminino inato já queria me fazer puxar o fio e acabar com toda essa idéia louca, só que a essa altura do campeonato eu não ia deixar mesmo isso acontecer. Fiquei sem chão na hora, sim, e por um momento questionei meu juízo, achando que tivesse sido muito precipitada. Porém, embora ele estivesse com toda aquela tensão o sufocando, ele em momento algum titubeou ou tentou fugir. Ele só queria desabafar e sentir-se bem com toda aquela idéia. Queria minha ajuda para deixar de sentir aquelas sensações desagradáveis. De alguma forma, mesmo sem ter onde me segurar, eu consegui acalmá-lo tirando dele toda a “obrigação” que existia nesse nosso acordo. Apresentei a ele várias opções de como tudo poderia ser feito, de forma que sua cabeça o pudesse deixar descansar. Vamos dançar conforme a música, que tal? Não precisa demorar comigo. Não vou usar perfume. Não vou te prender. Vamos apenas conversar. Se não se sentir à vontade, pode ir embora. Não ficarei chateada. Apenas vá! (Apenas vá, que do resto eu me encarrego: de você querer demorar comigo, de você pouco se importar pro meu perfume sendo absorvido pela tua pele, de você não querer ir embora…)

Na noite anterior à minha ida, adentramos a madrugada conversando. Logo após, dormi por umas horas para descansar. Já ele não pregou os olhos. Ainda estava ansioso, mas não naquele nível extremo da semana anterior. Eu, como mente planejadora e executante de toda essa aventura, sequer tive tempo de ficar ansiosa. Porém, cheguei bem cedo ao aeroporto e ali comecei a querer que a hora passasse logo e que eu embarcasse logo naquele avião. Um vôo de duas horas pareceu durar mais que um vôo de doze pra Europa.

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História contada pela leitora Eurídice Callas

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